quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Inversão totalitária

Inversão totalitária

Olavo de Carvalho
O Globo, 27 de julho de 2002



Todo movimento ou partido político busca autodefinir-se em slogans genéricos de aceitação compulsória, de modo a colocar automaticamente seus opositores numa posição indefensável. Se um partido se apresenta como porta-voz da “liberdade”, do “anti-racismo” ou dos “direitos humanos”, quem ouse criticá-lo no que quer que seja se denuncia no ato como adepto da opressão, do racismo ou da injustiça, embora não tenha realmente defendido nada disso e embora esteja falando de coisa completamente diversa. A força do slogan permite desviar toda discussão de pontos concretos para um confronto estereotipado entre os valores ideais e o mundo mau que se opõe à sua realização. Abrigadas por trás de belas generalidades, as ações concretas do partido ou movimento, por mais ambiciosas, cruéis ou imorais que sejam, ficam a salvo de críticas.

Mas, tal como o sentido de uma filosofia só se esclarece quando sabemos a que outra filosofia ela se opõe, o espírito de um movimento político não se revela por seus ideais professos, mas pelos obstáculos e antagonismos que ele busca remover do seu caminho. Importa menos saber “pelo quê” ele luta do que “contra quê”. A Revolução Russa dizia querer apenas “pão, terra e liberdade”. Na prática, a luta por esse ideal consistia na destruição de toda uma classe social pelo terror e pelo homicídio em massa, mas quem quer que se opusesse a essa política era denunciado como um malvado que queria negar pão, terra e liberdade aos pobres.

Do mesmo modo, as reivindicações dos movimentos ditos “de minorias” são aparentemente modestas e irrecusáveis. Quem negaria a um ser humano garantias contra a discriminação por motivo de raça, gênero ou preferências eróticas? O problema começa quando você pergunta o que esses movimentos vão destruir para chegar a seus objetivos.

O governador paulista Geraldo Alckmin, por exemplo, baixou em novembro de 2001 uma lei que pune com multa quem impeça a entrada, em instituições particulares abertas ao público, de algum sujeito identificado como gay. Bem, a presença de um travesti numa sinagoga, numa mesquita ou numa igreja ortodoxa é uma afronta a regras milenares. Aí surge um conflito entre os direitos de dois grupos. Um desses grupos define-se pela comunidade de preferências e gostos sexuais. Outro pela comum devoção a valores morais e religiosos que fundaram civilizações e deram à espécie humana a consciência de sua dignidade. Deve este último ser proibido de praticar sua moral dentro de seus próprios templos para não ferir suscetibilidades advindas de uma peculiaridade de gosto? A adoção universal desse princípio teria as mais catastróficas conseqüências em escala civilizacional e até antropológica. Mas o movimento gay não está nem ligando. A obsessão de seus direitos grupais cega-o para os direitos do restante da Humanidade. A desproporção entre a pequenez dos interesses que a lei do sr. Alckmin protege e a imensidão do que ela terá de destruir para protegê-los é monstruosa. Mas, para saber até onde um político é capaz de chegar na sua ânsia de ostentar bom-mocismo, basta notar que a mesma lei, proibindo quaisquer atos “vexatórios, discriminatórios e atentatórios” contra a comunidade gay, inclui entre esses atos os “de ordem filosófica”. Sim, senhores: filosófica. Está lá na alínea 1 do art. 2 da lei estadual 10.948. Ora, que seria um ato vexatório de ordem filosófica? Pensar em voz alta contra a ideologia gay incomoda tremendamente os gays, logo é um ato vexatório. O presente artigo, publicado em São Paulo, estaria sujeito a multa.

Mas não há nisso nada de estranho. Movimentos como aquele que essa lei protege não podem, por definição, tolerar objeções de espécie alguma. Eles próprios nem parecem dar-se conta disso, tal a naturalidade, quase a inocência, com que saltam das exigências irrecusáveis para a imposição de caprichos totalitários. A lógica paradoxal com que passam de uma coisa a outra é tão sutil quanto incontornável: dos slogans genéricos que servem para bloquear a discussão de pontos concretos, nenhum é mais eficiente do que a “luta contra o preconceito”. Claro: quem quer que se oponha ao inimigo nominal dos preconceitos só pode fazê-lo... por preconceito! E preconceitos são abomináveis. Logo, antes mesmo de terminar de falar, o imprudente já se vê cercado por uma malha de reações emocionais — senão físicas — de repulsa e desprezo, que bloqueiam qualquer discussão séria de seus argumentos.

É evidente que, em tais circunstâncias, a palavra mesma “preconceito” teve seu sentido invertido. Significava a rejeição prévia de uma idéia que não se queria examinar. Agora é um rótulo infamante que se cola sobre uma idéia para não ter de examiná-la. A “luta contra o preconceito” tornou-se a mais gigantesca máquina de criar preconceitos. Ao infeliz que caia dentro de suas engrenagens, de nada servirá a alegação, por mais sincera, de que nada tem contra os gays ou qualquer outra “minoria”, de que quer apenas preservar a escala hierárquica dos direitos para que os direitos menores não pisoteiem os maiores. Isso também será uma prova de “preconceito”.

Os efeitos dessa inversão são incalculáveis. Psicologicamente, ela paralisa nas multidões a capacidade de raciocinar sobre o ponto em discussão, induzindo-as a aceitar passivamente a opinião de quem grite mais alto. Sociologicamente, demole o princípio mesmo de hierarquia racional inerente à idéia de direito, preparando o advento de um novo tipo de Estado em que as únicas fontes do direito serão o poder de pressão, a intolerância arrogante e a chantagem psicológica.

publicado em http://www.olavodecarvalho.org/semana/07272002globo.htm

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